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Arquivo do mês: outubro 2016

As eleições e a revolução

Oi gente,

O clima aqui no Rio de Janeiro é de segundo turno e não vou deixar passar a oportunidade pra falar um pouco no assunto.

O mundo que eu quero está bem longe de existir, tem gente que chama de utopia, eu prefiro horizonte (embora em termos práticos dê no mesmo), eu não vou chegar lá, mas é uma direção pra onde caminhar. Não acredito que eu vá ver nada do que realmente quero pra sociedade, mas é a direção da luta pra um dia, quem sabe, a sociedade chegar mais perto.

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Pois bem, as urnas não são o caminho para esse mundo, isso é bem claro para mim, se votar mudasse alguma coisa, seria proibido. Para o que eu quero só as ruas e a revolução, o voto não vai revolucionar nada, não vai mudar de verdade nada, mas ainda assim eu voto (ou voto quando acho que tenho alguma opção plausível). Mas por quê?

Não acredito que a revolução virá por meio do voto, mas acredito que algumas poucas reformas podem vir sim, principalmente quando falamos de legislativo (vereadores, deputados e senadores). Se tratando de executivo (prefeito, governador e presidente), não acredito que conseguem chegar ao poder sem se render ao sistema ou governar sem o apoio do legislativo, mas ainda assim acho que um presidente mais ou menos reacionário pode fazer alguma mínima diferença.

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Nenhuma reforma vai mudar a sociedade nem alcançar o tal horizonte, mas nos últimos anos, por exemplo, vimos as vagas das universidades federais aumentarem e muita gente de família pobre entrando na universidade. No Rio de Janeiro, vimos uma piora considerável nos transportes (pra quem é daqui sabe que de repente a gente não conhece mais nenhuma linha de ônibus, que troncal é esse?), além do encarecimento absurdo da passagem de ônibus que já está quase nos quatro reais.

Então não acho de fato que votar nesse segundo turno vá fazer alguma diferença real aqui na minha cidade, mas dá pra esperar algumas pequenas mudanças que podem sim deixar a vida um pouco menos pior e talvez alguns passinhos mais perto do tal horizonte. Ou talvez eu seja só mais uma romântica.

Beijos

Mulheres são ensinadas a cuidar

O que esperar de uma sociedade onde a mulher é ensinada a amar sempre, desde criança e o homem não? Pois é, desde que somos crianças a gente cuida da boneca, cuida da casinha na brincadeira, cuida do irmão mais novo e vê mulheres nesse papel de quem cuida. A gente é ensinada a se doar pelos outros e amar incondicionalmente, principalmente se esse outro for homem.

E os meninos? Os meninos não cuidam, eles nem ao menos se cuidam (até porque sempre tem uma mulher que cuide), no máximo eles protegem. O irmão que protege a irmã de outros caras, o namorado que protege a namorada acompanhando-a até em casa, o príncipe que protege a princesa da bruxa ou do dragão… Ué, mas não é a mesma coisa? Não. A mulher que protege ela se doa e, muitas vezes, se anula. Os homens não, os homens protegendo eles se enaltecem, viram heróis. Nenhuma mulher vira heroína por fazer o almoço todos os dias ou deixar a casa arrumada, mas o homem que abre a porta do carro é enaltecido.

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Além de nos ensinarem a cuidar, amar e nos anular pra isso, somos ensinadas também à heterossexualidade, que precisamos de um homem na função de companheiros para estarmos bem. Uma mulher que chega aos 30 sem marido ou, pelo menos um namorado, já tá passando da idade, é uma solteirona, mas o homem mesmo aos 40 ou 50 pode estar curtindo a vida. Além de que as mulheres envelhecem e ficam mais feias, os homens ficam charmosos, a idade lhes cai bem (mas isso é assunto pra um outro post). Bom, então estamos ensinando nossas meninas a amar homens, mas não ensinamos nossos meninos a amarem mulheres, como isso pode funcionar?

Pois é, não pode. Quando a gente ensina pras meninas que a coisa mais valiosa que ela pode ter é o amor de um homem, a gente está ensinando que vale a pena tentar de novo e aguentar mais um pouco, porque ele é o verdadeiro amor da vida dela e ela só será completa com ele. Quando encaramos casamento como a salvação para a mulher e uma armadilha para o homem, quando a gente romantiza a violência ou os ciúmes (tipo a frase matar de amor ou ser ciumento porque ama muito), a gente direciona mulheres para o feminicídio. A mulher ciumenta é louca, o homem, ama, está cuidando do que é seu. É assim que a gente alimenta relacionamentos abusivos.

A única forma que um relacionamento pode dar certo e se as duas partes compartilharem coisas. A gente precisa ensinar os meninos sim a amar, respeitar e admirar mulheres desde crianças, e precisamos ensinar as mulheres a serem fortes, independentes, pensarem em si, se amarem e se sentirem completas, além de também conhecer e admirar mulheres. Não é só mãe, nem só pai que tem que ajudar nisso, se você tem contato com crianças e adolescentes, vale a pena refletir sobre isso.

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A cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil em média, o feminicídio e a violência masculina ferem e matam mulheres diariamente, não é um cara doente ou psicopata que estupra e mata mulheres por aí, são os homens ensinados a odiarem mulheres, são os homens normais da nossa sociedade patriarcal.

 “Dizer que um homem é heterossexual implica somente que ele mantém relações sexuais exclusivamente com o sexo oposto, ou seja, mulheres. Tudo ou quase tudo que é próprio do amor, a maioria dos homens hétero reservam exclusivamente para outros homens. As pessoas que eles admiram; respeitam; adoram e veneram; honram; quem eles imitam, idolatram e com quem criam vínculos mais profundos; a quem estão dispostos a ensinar e com quem estão dispostos a aprender; aqueles cujo respeito, admiração, reconhecimento, honra, reverência e amor eles desejam: estes são, em sua maioria esmagadora, outros homens. Em suas relações com mulheres, o que é visto como respeito é gentileza, generosidade ou paternalismo; o que é visto como honra é a colocação da mulher em uma redoma. Das mulheres eles querem devoção, servitude e sexo. A cultura heterossexual masculina é homoafetiva; ela cultiva o amor pelos homens.”

Marilyn Frye

Beijos