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Arquivo da tag: Refletindo

Refletindo – Não é preconceito, é gosto

Oi gente,

É muito comum que uma pessoa justifique certas escolhas, consideradas preconceituosas, como gosto pessoal.

“Não sou racista/ gordofóbico/ transfóbico/ preconceituoso em relação a deficientes, só não me atraio por negros/ gordos/ trans*/ deficientes”. Será? Não acho que a pessoa que diz isso está mentindo, realmente acredito que ela não se atraia, mas nem por isso quer dizer que não haja preconceito ou que a gente não tenha que refletir sobre.

Se o gosto fosse algo realmente pessoal a gente não veria um padrão tão claro e delimitado, haveria muito mais variedade em relação a padrão de beleza porque cada um se atrairia (não só no sentido sexual, mas de achar bonito mesmo) por pessoas completamente diferentes. Não haveria essas pessoas que são unanimemente bonitas, que todos acham lindas.

Desde que nascemos vamos aprendendo o que é ser bonito, atraente, desejável. O padrão de beleza aparece em todos os lugares, nos filmes, livros, propagandas, revistas, concursos de beleza… E a gente acaba, muitas vezes sem perceber, querendo alcançar esse padrão e acreditando que aquilo que a mídia coloca como bonito é realmente o que nós achamos bonito, que é uma opinião nossa, não que foi imposta.

Só que o padrão é sempre o mesmo, branco, loiro, olhos claros, magro, sem deficiências… Aquele que a gente está cansado de ver em todos os lugares e que é racista, heteronormativo, classista, homofóbico, transfóbico, gordofóbico…Ou seja, um padrão muito preconceituoso que quer isso mesmo, perpetuar todo preconceito. E aí, quando você se encaixa no padrão (e não tô falando de ser isso, tô falando de gostos, de concordar com a imposição de que a beleza é isso mesmo) você tá sim repetindo um padrão preconceituoso.

Então na verdade esse gosto não é seu, ele foi imprimido em todos nós desde que nascemos, e sim, ele é preconceituoso. Você pode apenas continuar insistindo que é seu gosto, ok, mas você pode também tentar desconstruir isso, fazer o exercício de enxergar novas belezas e questionar padrões. Começa colocando no Google homem mais bonito do mundo e mulher mais bonita do mundo.  Eu fiz isso, são pouquíssimos os negros, não tem nenhum gordo, nenhum deficiente, nenhuma mulher masculinizada ou homem afeminado entre tantas coisas que faltam.

E mesmo quando as minorias entram nessa categoria de beleza ainda podemos ver a padronização. Entre uma enorme maioria branca, aparece uma negra com destaque na novela, ela provavelmente vai ter o nariz fino e os traços “delicados” da mulher branca. A lésbica da novela sempre é super feminina, porque ser lésbica tudo bem, mas ser machinho, aí já é vandalismo. Não tô dizendo que só existem lésbicas mais masculinas, tô dizendo que há uma padronização na representação, como se não houvesse variedade.

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Eleita a mulher mais bonita do mundo em 2014 pela revista People. Muita gente discordou dizendo que o problema não era ela ser negra, mas não ser tão bonita. E citavam Halle Berry, que tem os traços mais finos, o cabelo que não é crespo e a pele mais clara, como comparativo. É racismo sim. Fonte da foto: http://www.bet.com/topics/l/lupita-nyong-o.html

Repensar gosto não é uma tarefa fácil, muitas vezes ele está tão incrustado, que não conseguimos ver além, pelo menos não de imediato. Mas é um exercício, se questionar e tentar, cada dia um pouquinho, ver a beleza além da que aparece na mídia. Eu faço esse exercício todos os dias, ainda não venci, mas tô melhorando bastante, cada dia uma pequena vitória.

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Beijos

recado

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Refletindo – “erros” de Português

Oi gente,

Eu já falei por aqui que fiz Letras, e quando eu falo isso é bem comum as pessoas falarem coisas como “agora vou prestar atenção nas palavras que vou usar”.

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Parece que ser formado em Letras nos torna uma gramática ou dicionário ambulantes e vamos sair corrigindo todo mundo, mas, pelo menos a formação que eu tive, foi muito diferente disso. Na faculdade aprendemos, por exemplo, que a língua é viva e muda com o tempo. Não só do latim para o Português, mas também dentro do próprio Português. Novas palavras vão sendo criadas o tempo todo a cada novidade que surge e as gírias são substituídas ao longo do tempo.

Aprendemos também que não existe erro em língua para o falante nativo, o que existe são variantes, variedade do Português. Claro que uma criança, que ainda está aprendendo pode cometer erros, ou um estrangeiro também, mas um falante de Português mesmo, fala Português sim, mesmo que fale coisas diferentes do que a gramática diz. Os donos da língua (se é que isso existe) somos nós, falantes, não os gramáticos. A língua não foi criada a toa, ela tem um propósito, que é o de comunicar. E ela deve cumprir esse papel, uma pessoa fala e a outra entende.

O problema é que ela é usada também com instrumento de poder, por isso que existe uma língua considerada certa, a que a gente aprende na escola, já excluindo quem não tem acesso a ela, e outras consideradas erradas. Nas universidades muitas aulas são dadas com uma linguagem que não é todo mundo que entende, muitos médicos também usam nomes técnicos, o que afasta os pacientes, as leis, que deveriam ser para todos, são incompreensíveis para a maioria da população. E desse jeito a gente vai excluindo quem não sabe a tal “língua certa”

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Quem definiu que “os meninos” é mais certo do que “os menino”? Se a gente ouve qualquer um deles a gente entende muito bem e sabe que querem dizer a mesma coisa, os dois cumprem o papel de comunicar com a mesma eficiência, por que um é considerado certo e o outro errado? Ao mesmo tempo que você pode dizer que o certo é o que concorda, então temos que pôr tudo no plural, podemos argumentar que não precisa, fica redundante, se eu digo “os”, já se entende que é plural, então posso usar “menino”. Se tem muita gente falando assim, por que não pode ser também certo, quem define qual o certo?

E esse preconceito leva a muitas outras coisas, é bem comum vermos pessoas desmerecendo o discurso e a argumentação de outras pessoas por causa de “erros de Português”. A frase “primeiro aprende Português, depois vem falar comigo” é horrível, é cruel. Todo falante nativo sabe Português e ele não usar a norma culta não inviabiliza a argumentação e os motivos dele. Se você não tem resposta ou apenas não quer discutir, diga isso, invente outra desculpa, mas não seja preconceituoso, não inferiorize as pessoas pela língua (ou, por motivo nenhum). Vamos respeitas as diversas variedades existentes.

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Beijos

Refletindo – por que eu uso maquiagem?

Oi gente

Eu já falei algumas vezes sobre a beleza natural e da gente não ser obrigada a estar sempre maquiada e perfeita, então por que eu, que defendo a beleza natural, ando maquiada?

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Todos nós nascemos em uma sociedade que nos impõe um monte de padrões e um monte de coisas que mudam dependendo da época, do lugar, classe social, da idade, religião, sexo e várias outras coisas. Por mais que a gente não se jugue vítima da moda ou pretenda não seguir padrões impostos, é muito difícil conseguir se livrar deles. Só a gente olhar uma foto de pessoas há 20 ou 30 anos e de pessoas de agora, bem provável que a gente ache estranho a foto mais antiga, o cabelo dos anos 80, por exemplo. E isso fica ainda mais óbvio se olhamos imagens mais antigas. Claro que tem gente que pode amar a moda do século XVIII, mas daí  a usar na rua os vestidos e espartilhos da época, tem uma enorme diferença.

Não dá pra acreditar que todo mundo mudou de gosto junto, né? O que a gente considera como roupa normal hoje é uma imposição da moda. E as coisas podem até ser mais livres do que há décadas atrás, mas não dá pra negar que existe um padrão que é seguido por quase todo mundo, não importa se você é ligado ou não na moda, compra ou não roupa todo mês.

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Mas voltando pra maquiagem, eu, particularmente, até que nasci em um ambiente que incentivou pouco esse uso, vejo meninas bem pequenas já maquiadas enquanto eu, com meus dez anos pedi maquiagem pra minha mãe pra me fantasiar de vampira, não fazia ideia do que era um rímel ou blush. Aliás, foi através da maquiagem artística que comecei a me interessar por maquiagem. Comecei procurando tutoriais de maquiagem de monstro, sangue, feridas… E, através deles, cheguei em vídeos de maquiagem normal. Eu achava aquilo bonito, que dava um efeito bonito e decidi treinar e aprender.

Foi aí que eu comecei a usar maquiagem conscientemente, mas na verdade sei que não foi completamente uma escolha, foi uma imposição social, todas as mulheres consideradas bonitas na mídia estão maquiadas, mesmo aquelas que parecem que não estão têm a pele sem manchas ou marcas, as bochechas coradas e os cílios longos, curvados e volumosos. Se alguém me perguntar, eu vou dizer que uso maquiagem porque adoro, me divirto mesmo e acho que fica bonito, não mais bonito que a pele natural, mas um bonito diferente. Ok, mas será que é só isso mesmo?

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Eu saio de cara limpa com bastante frequência, no dia a dia só me maquio se realmente estiver afim e prefiro dormir mais cinco minutos do que me maquiar de manhã. Mas ok, sair de dia sem maquiagem é bem normal, pelo menos aqui no Rio, vejo muita gente sem. Mas e se eu tiver uma festa ou for sair de noite em um dia que eu não esteja com vontade de me maquiar? Pronto, todo aquele discurso de eu faço apenas porque quero acabou, eu não iria de cara limpa em um casamento. E olha que nem é nada demais, não tô falando de ir pelada ou de biquíni, tô falando de ir sem maquiagem, que nem todos os homens vão.

Estou escrevendo esse post aqui, não para convidar todas a invadirem festas sem maquiagem, mas pra gente refletir sobre essa imposição (e as milhões de outras que nos fazem) e ver que, mesmo quando parece ser uma escolha, muitas vezes não é. Por isso eu digo que, ir em um lugar onde todos esperam que você vá maquiada sem estar maquiada, é um ato político, romper essas imposições são atos políticos.

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Beijos

Refletindo – perfeição feminina

Oi gente,

Uma coisa que vejo muito nos blogs e Youtube femininos, principalmente ligados à beleza: mulheres pedindo desculpas por sua aparência.

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É um tutorial de maquiagem que a menina pede desculpas pelo esmalte descascando, uma resenha de uma base e a outra pede perdão pela sobrancelha que não está feita, aquele vídeo que é adiado pela gripe, que deixa a voz rouca ou pela espinha que acabou de brotar… E o tempo inteiro elas pedem desculpas, desculpas por não estarem perfeitas.

Eu sei que o tempo todo somos bombardeadas com essa necessidade da unha feita, da pele lisa, dos pelos apenas onde a gente quer (muitos na cabeça, sem falhas e no lugar nas sobrancelhas e volumosos, longos e curvados nos cílios), mas acho que não dá pra gente aceitar tudo e achar natural essa idealização.

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Em geral, quem faz um blog de beleza gosta de maquiagem, gosta de ter as unhas feitas e tudo mais, mas tem um momento que deixa de ser gosto e passa a ser uma obrigação. Eu gosto de pintar as unhas, até comentei aqui que estou conseguindo ter uma rotina de pintar sempre, mas uma certa semana eu posso não pintar. Pode ser por falta de tempo, de vontade, de dinheiro, de habilidade… Não importa, mas eu não quero ter que pedir desculpas por isso, minhas unhas não nascem naturalmente com esmalte e não quero ter que pedir desculpas por estar natural.

Desculpas eu peço quando faço algo errado, ofendo ou magoo alguém, não porque não tirei as sobrancelhas ou o esmalte descascando aparece no vídeo. Eu entendo que, pra quem trabalha com blog de beleza, a imagem é muito importante e é o cartão de visita. Mas aceitar que é normal pedir desculpa por ser quem você é e não estar nos padrões é só perpetuar essa obrigação. Quanto mais mulheres acharem normal uma unha descascando e postarem isso sem nenhum problema, mais a gente vai mudar esse padrão.

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Não sou contra maquiagem, unhas feitas ou mesmo procedimentos estéticos, mas essa obrigação de só aparecer na foto e na Internet quando se está “perfeita” e dentro dos padrões exigidos acho bem complicado. Acho mais complicado ainda quando os desvios desse padrão são acompanhados de pedidos de desculpas. Eu não vou me desculpar por não ter tido tempo de tirar o esmalte descascado, se o post é pra mostrar um tutorial de maquiagem, as unhas descascadas não fazem diferença.

Já repararam nesses pedidos de desculpas? O que acham?

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Beijos

Refletindo – tudo é política

Oi gente,

Vou começar o post de hoje com uma história real.

Quando eu era criança, um dos sonhos da minha vida era ser escritora (e fazer nado sincronizado também) e me lembro de uma vez que, conversando com a minha mãe sobre músicas e época da ditadura eu defendi o direito de ser neutro, de, mesmo na ditadura, fazer música sem política. Mas aí ela disse que isso não existia, que sempre nos posicionamos. Na época eu não concordei, pra mim era perfeitamente razoável eu me abster, falar sobre outra coisa e não tomar posição.

Mas com o passar do tempo entendi completamente minha mãe e hoje concordo com ela (e ela nem deve lembrar dessa conversa). A questão é que o tempo inteiro a gente faz escolhas e quando decidimos falar, escrever ou apoiar alguma coisa, tem outra (ou outras) das quais não estamos falando, escrevendo ou apoiando. E essa escolha é uma coisa política.

Nem sempre política está ligado a um partido, eleições ou aos políticos. A nossa opinião sobre as coisas e nossas ações em relação a essas coisas é política, então a gente está o tempo inteiro fazendo política e acho importante a gente se conscientizar disso. Quando o casamento homoafetivo foi legalizado em todos os EUA muitas pessoas trocaram as fotos do perfil do facebook, agora outras colocaram um filtro contra a PL5069, há algum tempo houve uma troca de sobrenomes para Guarani Kaiowá, enfim, uma infinidade de coisas. Tudo isso são manifestações de apoio e indicam um posicionamento, uma posição política. E não participar de nenhuma delas é também uma posição.

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Se vestir também pode ser político, nosso estilo muitas vezes passa opinião, o que pensamos sobre moda, consumismo, como queremos nos mostrar pro mundo.

Claro que existem milhões de formas de se posicionar, não é porque não coloquei o arco-íris na foto que eu não apoio a causa ou acho menos importante, mas temos que lembrar que se posicionar ou não faz diferença sim.

Em geral a gente tem as pessoas que estão satisfeitas com a situação atual e que se privilegiam dela, os opressores, e aquelas que querem mudar as coisas, os oprimidos. Claro que nem toda situação de mudança é assim, mas nos casos que eu citei (ditadura, homofobia, machismo, racismo…) é o que vemos. Nesses casos existe um lado mais poderoso, o lado que está no poder e que não quer mudanças e o outro lado, que luta por mudanças.

“Ok, mas eu não quero lutar por essa causa, não quero me posicionar ou falar dela”. O problema quando a gente não fala nada é que a gente acaba fortalecendo o lado dos opressores. Lembra que os opressores não querem que o sistema mude? Então, não falando nada, não se posicionando, a gente acaba fazendo exatamente o que eles querem. Por isso todo ato, todo discurso é político.

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Caso de racismo bem recente, Taís não deixou de se posicionar contra, isso é uma atitude política. Foto: http://www.brasil247.com/pt/247/brasil/203355/Taís-Araújo-é-atacada-com-comentários-racistas-no-Face.htm

Por isso eu comecei a fazer esses posts de refletindo aqui no blog, porque não quero estar do lado do opressor. Vou continuar falando de cabelo, maquiagem, viagem, fotografia, livros e tudo mais? Claro, mas quero também usar minha voz (mesmo sendo baixinha) pras causas que eu acredito. Por isso eu gosto tanto dos blogs que também se posicionam e que usam a voz, o alcance todo pra tratar de assuntos importantes.

Não tem jeito, quanto maior a sua visibilidade, mais pessoas suas atitudes vão alcançar. Então temos sim que prestar atenção no que a gente fala, e quanto maior o público, mais atenção. Uma coisa é eu falar uma besteira entre alguns amigos, outra é eu ser professor e falar a mesma besteira pra turma inteira ouvir. É diferente também um canal do Youtube com 100 mil, 500 mil, um milhão de inscritos, ou mesmo um ator/ atriz na televisão. A gente tem que sempre pensar antes de falar, mas quanto maior nosso público, quanto maior nossa influência, mais a gente tem que tomar cuidado.

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Tatuagem em lugares visíveis do corpo também querem dizer que você não concorda que a tatuagem deve ficar escondida e que você não vai se submeter a isso. Foto: http://starchanges.com/kat-von-d-celebrity-plastic-surgery/

Isso quer dizer que nunca vamos falar besteiras e nos arrepender? Claro que não. Mas percebeu que disse algo ofensivo, preconceituoso, pede desculpa e não repete. E use sua voz, seu corpo, seu espaço para lutar as lutas com as quais você se identifica.

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Beijos

Refletindo -opressores

Oi gente,

Quero tentar falar um pouco sobre opressão e movimento de minorias.

Vou começar contando uma história. Quando eu era mais nova, via muito as pessoas usarem a sigla GLS (gays, lésbicas e simpatizantes) quando se falava em festas, públicos e lugares. Com o tempo, pelo menos na minha percepção, essa sigla começou a ser substituída pela LGBT. Na época lembro que achei estranho, então aqueles que eram simpatizantes, que eram heterossexuais e cisgêneros não tinham mais espaço?

Hoje em dia entendo isso de forma bem diferente. O movimento é LGBT porque são essas pessoas que sofrem o preconceito, que têm menos direitos e que lutam pela própria igualdade. Claro que você, que não representa esse público, é também bem vindo, você, que se via lá no S de simpatizante pode, e deve ajudar, mas o protagonismo não é e não pode ser seu.

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Precisamos marcar de quem é a luta, quem é o oprimido que deve protagonizar o movimento. Eu usei o LGBT como exemplo, mas isso vale para todos os movimentos. Sexta foi dia da consciência negra. Por que consciência negra e não consciência humana? Porque nosso país é extremamente racista, porque precisamos desse dia e porque são os negros que precisam protagonizar seu movimento. Um dia da consciência humana, só manteria o branco como protagonista, como principal e é isso que temos que reverter. Ainda precisamos (e muito) do dia internacional da mulher, do feminismo (que também tem esse nome para lembrar e trazer o protagonismo da mulher) e de tantos outros movimentos de minorias. Precisamos respeitar o protagonismo, a liderança do oprimido em seu próprio movimento.

É muito importante também que a gente se lembre de todos os nossos privilégios e como podemos ser potencialmente opressores. Eu, por exemplo, sou mulher e sou oprimida diariamente por isso, tenho que tomar cuidado com a roupa que uso, tenho que ouvir diariamente piadas e comentários machistas, ganho menos que o homem para fazer o mesmo trabalho e mais um monte de coisas. Mas eu também sou branca, nunca soube o que é sofrer racismo. Por isso preciso me colocar como potencialmente opressora e sempre estar atenta a ouvir os negros sobre racismo.

Quando eu falo para um homem sobre meu medo de ser estuprada eu não quero ser questionada e não acho que ele, que nada sabe sobre isso, pode me deslegitimar. Então tenho que me colocar com a mesma humildade que espero do homem, quando se trata de opressões que eu não sofro.

Se a gente conseguir repensar nossos privilégios e ouvir os oprimidos, dar voz, respeitar, apoiar, aí sim a gente pode, quem sabe, chegar em um dia em que não existam mais privilégio, em que a gente possa abolir os movimentos das minorias, porque aí não vão mais ter minorias. Nesse dia a gente fala de consciência humana.

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Beijos

Refletindo – a letra T do arco-íris

Oi gente,

Decidi escrever hoje sobre esse assunto já que a 20ª Parada do Orgulho LGBT aqui do Rio foi ontem.

Quero falar um pouco sobre a letra T, a que as pessoas menos falam. Vou ser sincera, não sou especialista nem entendo muito desse assunto, na verdade eu preferiria deixar que umx trans ou uma travesti falasse sobre isso aqui, mas no momento só tem eu mesmo.

A letra T, pra quem não sabe, é de transexual que, nesse caso inclui as travestis também. Existem alguns lugares que usam outras siglas, mas a que eu mais vejo no Brasil é LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transexuais) mesmo. Essa sigla aborda basicamente duas questões, a sexualidade e a identidade e o que quero falar hoje é de como essas coisas são diferentes.

O gênero, ou identidade de gênero é sobre o que você é, o que você se identifica. Eu, por exemplo, fui identificada como menina quando nasci, recebi um nome de menina, assim fui tratada minha vida inteira e nunca tive problemas com isso, eu me sinto mulher, sou mulher. Todas as pessoas que, assim como eu, se identificam com o gênero que nasceram (homem ou mulher), são chamadas cisgêneras. Então se você nasceu num corpo masculino e se vê como homem ou nasceu num corpo feminino e se vê como mulher, você é cisgênero. A maioria das pessoas é assim.

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A bandeira trans

Mas nem todo mundo. Algumas pessoas nasceram com um corpo feminino, mas se identificam como homem, outras nasceram no corpo masculino e se identificam como mulher, outras ainda, não se identificam nem como homem nem como mulher, ou mesmo se identificam com os dois. Eu não conheço todas as identidades de gênero, sei que são muitas e que elas nada tem a ver com o que temos no meio das pernas, mas com como nos sentimos. As pessoas que não se identificam com o sexo que nasceram são chamadas transgêneras, transexuais ou travestis (travesti só serve para mulheres).

Quem não nasceu com corpo feminino, mas se vê mulher é uma trans mulher (ou travesti, dá pra ler um pouco sobre a diferença aqui pra quem tem Facebook). Quem não nasceu num corpo masculino, mas se vê homem, é trans homem.

Isso pode parecer estranho no início e, se você é cisgênero, pode achar que você só se sente homem ou mulher porque foi criado assim, porque já nasceu assim. Mas a gente tem que lembrar que ser homem ou mulher vai muito além de uma genitália, envolve toda uma construção sexual. A gente divide o mundo em coisas de menino e de menina, as atividades, o jeito de andar, falar, tudo. Então se eu nasci com um pênis mas me identifico com o papel social feminino eu sou uma mulher, já que ser uma mulher é um papel social, não uma genitália.

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Pra quem nunca pensou nisso antes pode ser complicado de assimilar, mas tem bastante fonte sobre isso na Internet. Vamos pensar assim, você um dia, sem motivo nenhum, acorda com a genitália que você não nasceu, no caso, como se eu acordasse com um pênis. Imaginou? Você realmente acha que passaria a se identificar com o outro gênero? Que você ia deixar de ser a mulher (ou homem) que você é só porque mudou o que você tem entre as pernas? Eu tenho certeza que não ia sair mudando meus gostos, modo de vestir ou sentir por causa disso, eu ia continuar sendo mulher e me identificando assim.

Transexualidade (por favor, não digam transexualismo, esse prefixo, ismo, é associado a doenças ou ideologias, nesse caso, é ofensivo) não tem nada a ver com por quem você se atrai, é apenas uma pessoa que não se identifica com a genitália. Ser gay, lésbica, bi, pan, assexuado, etc, nada tem a ver com isso. Uma pessoa cisgênera não pode ter qualquer sexualidade? Então, uma transgênera também. E aí a gente respeita a identidade da pessoa. Se ela nasceu com um pênis, mas se vê mulher, ela é mulher. Vai ser lésbica se gostar de outra mulher, mas hetero se gostar de homem. Se uma pessoa que nasceu com vagina se sente homem e gosta de homem, é gay, se gostar de mulher, é hetero.

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Resuminho pra facilitar

Claro que nem tudo é assim bem definidinho, como eu disse, existem diversas identidades e várias sexualidades também, você não é obrigado a conhecer todas, mas respeitar é um ótimo começo. Se você não souber como deve chamar uma pessoa (se no feminino ou masculino), observa como ela trata a si mesma e o nome dela. Se não for suficiente, pergunta. Se você errar e a pessoa te corrigir, apenas aceite e tente acertar da próxima vez.

Não pergunte o nome de batismo da pessoa, é indelicado, o nome dela é aquele que ela prefere ser chamada; não pergunte se fez ou não cirurgia, isso não te diz respeito; não diga que parece uma mulher (para a trans mulher) ou que parece um homem (para o trans homem), a trans mulher é uma mulher e o trans homem é um homem; não chame de traveco nem de “o travesti”, o sufixo –eco é depreciativo e travesti é uma mulher, se refira sempre como a travesti.

Sei que é muito assunto pra pouco espaço, mas achei importante abordar esse pouquinho aqui, principalmente para tentar explicar que transexual é diferente de homosexual ou bisexual.

UPDATE (31/05/2016): esse post foi feito baseado na teoria Queer, existem outras teorias de que não consideram gênero como identificação, mas como um sistema de opressão que é passado para nós desde pequenos em tudo que aprendemos (a chamada socialização). Essa segunda visão de gênero, materialista, é minha visão atual. Não quis apagar esse post nem nada, embora não concorde mais com ele, por isso apenas coloquei essa nota.

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Beijos